Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

World without end

There were three friends
Discussing life.
One said:
"Can we live together
and know nothing of it?
Work together
and produce nothing?
Can people fly around in space
and still forget to exist
World without end?"

 

É o início da adaptação de um conto taoista do Chuan-Tzu. Imagino isto lido pela Laurie Anderson, por causa de "World without end":

 

I remember where I came from There were burning buildings and a fiery red sea I remember all my lovers I remember how they held me. World without end remember me. East. The edge of the world. West. Those who came before me. When my father died we put him in the ground. When my father died it was like a whole library Had burned down. World without end remember

 

Na altura que ela escreveu e interpretou a música o pai ainda não tinha morrido. É um detalhe, mas não deve ser fácil matar o pai numa música. Claro que sem essa linha esta música não existia. Lembro-me de ouvir a música a primeira vez e ficar dividido.

 

Pensar que "When my father died it was like a whole library had burned down" era uma imagem a que não podíamos ficar indiferentes. Uma homenagem bonita. Falar na primeira pessoa poderia ter esse sentido. Criava, no entanto, um apelo à emoção que era quase uma manipulação dos nossos sentidos, sendo uma morte real ou não. Tinha algo de errado, como nalguns flmes do Lars von Trier.

 

Sim, desde o início duvidava que sendo verdade alguém conseguisse cantá-lo assim. Ao mesmo tempo sentia que sendo verdade não deveria ser fácil para um artista despir-se assim perante o público, por uma arte, por uma homenagem. Para mim, com o meu pai ainda vivo, já produzia algum efeito de catarse. Sendo verdade, para ela mais do que libertador deveria ser obrigatório. Criou 2 minutos e meio de música para enfrentar essa biblioteca em chamas, e também eu devia agradecer alguém ter criado essa forma de combate musical.

 

O que me fazia a mim enfrentar? Um medo primordial talvez. Lembro-me de um dos sonhos recorrentes mais assustadores que tive em criança. Era o funeral do meu pai e ele ardia deitado numa espécie de mesa ou pedestal de pedra. O mais difícil no sonho não era enfrentar qualquer dor mas um vazio. Sendo recorrente tinha variações. Nalgumas o fogo ardia mas o meu pai falava-me de alguma forma. Noutras, um sorriso final de felicidade da parte dele não fazia nada para me apaziguar. Tinha uma necessidade dele que era egoisticamente indiferente ao que ele pudesse pensar da sua própria morte.

 

Curiosamente, quando descobri que a minha suspeita se confirmava - a morte do pai da Laurie era ali ficção - já não me chocou. Cantar uma morte falsa pode ser tão real como falar de coisas sérias e assinar "Amigo Gaspar". Como aquela história grega do escravo que faz um buraco no chão para poder sussurrar para lá um segredo. Claro que essa história acaba mal. Depois de voltar a tapá-lo crescem ervas que começam a sussurrar ao vento o que ele não poderia contar a ninguém.

publicado por amigogaspar às 10:28
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